CAIS, há 17 anos a ‘despertar consciências’ 23 Jan

CAIS, há 17 anos a ‘despertar consciências’

Fundada em 1994, a CAIS é uma associação de solidariedade social sem fins lucrativos que tem contribuído para melhorar as condições de vida de pessoas sem casa/lar, social e economicamente vulneráveis, em situação de privação, exclusão e risco. O meritório trabalho desenvolvido pela CAIS e a luta incansável que trava pelo acesso destes cidadãos aos direitos fundamentais merecem o reconhecimento da Fundação PT que, através do projeto Abrigo, apoia esta causa social.

"Gosto de estar aqui porque as pessoas preocupam-se realmente connosco, têm sempre uma palavra de incentivo. Eu faço o que posso para me sentir vivo e, aqui, as pessoas têm apostado muito em mim. Isso tem-me sensibilizado e dá-me confiança", afirma Vítor Lima, utente da associação CAIS desde julho.

Com uma história marcada pela dependência de estupefacientes, hoje, Vítor conta com orgulho que a sua vida "mudou bastante". Depois de um período de recuperação, Vítor frequentou um curso de formação de Pintura e Decoração de Cerâmica, com equivalência ao 9º ano, e com a bolsa que recebia conseguiu trocar o centro de acolhimento por um quarto. "Serviu principalmente para eu saber que sou

capaz", afirma. Com o fim do curso e consequentemente da bolsa, teve que "sair do quarto para guardar algum dinheiro para comprar o passe e poder procurar trabalho. Nesta altura comecei a vir à CAIS fazer as refeições e comecei a gostar de cá estar. A CAIS foi uma agradável surpresa. Aqui os técnicos, para além de técnicos, são companheiros, pessoas preocupadas com o que fazem e que gostam do que fazem. Isso é agradável para quem beneficia disso tudo".

"Quero ainda ser útil a esta sociedade", afirma Vítor Lima

Vítor Lima é hoje um dos inscritos para acompanhamento no Centro CAIS de Lisboa. Sara Pinto, coordenadora-geral da CAIS, conta que, entre 2009 e 2010, foram inscritos para acompanhamento 452 pessoas. Destas, 145 receberam formação profissional e 45 foram integrados profissionalmente. "É sempre bom ver pessoas que conseguem autonomizar-se através do emprego, reintegração ou criação de família/casa, que conseguem despedir-se da CAIS e dizer-nos obrigada", confessa.
 
Estes casos são reveladores do trabalho e missão da CAIS, uma associação que apoia a construção ou a recuperação da autonomia de pessoas em situação de pobreza extrema e exclusão social, nomeadamente, a pessoa sem-abrigo, através de uma atuação em dois eixos: inclusão e intervenção. "É um trabalho diário sustentado numa relação de confiança, afeto e segurança que se estabelece entre utentes, funcionários, técnicos e voluntários da associação CAIS", explica a coordenadora-geral.

"Na CAIS aprende-se a ser, a estar e a fazer."

Sara Pinto considera que é pelo trabalho que a pessoa se dignifica, daí a forte aposta da CAIS no CAHO

Na área da inclusão, que prevê o trabalho no terreno e a ligação/ apoio direto à população vulnerável, existem diversos projetos como os centros Cais, a Revista CAIS, o Capacitar Hoje – CAHO, o AventurArte, o Futebol de Rua e o ClubeCAIS. O objetivo é apoiar as pessoas em extrema vulnerabilidade social no seu processo de autonomia e diminuição das desvantagens e necessidades sociais através da capacitação e treino de competências.

Os centros CAIS, em Lisboa e no Porto, foram criados para ajudar a reconstruir a vida de pessoas em situação de pobreza extrema, durante as horas do dia. Sara Pinto explica que "são uma comunidade de inserção sem dormitório. Pretendemos que nestes centros haja sempre uma coresponsabilização, seja por participação nas atividades, seja financeira, como a existência de um custo simbólico na utilização dos serviços básicos como o banho, o tratamento de roupa e o refeitório. Tudo o resto é gratuito - o acompanhamento psicossocial, o aconselhamento jurídico, as atividades educativas e ocupacionais, as atividades formativas certificadas e esta possibilidade de integrar a bolsa de trabalho CAIS, a CAHO". O centro de Lisboa conta com 18 colaboradores e 12 voluntários contínuos e o centro do Porto com três colaboradores. Em ambos se procura replicar as estratégias e metodologias aplicadas nas diferentes atividades ao dispor dos utentes.

A Revista CAIS é vendida, na rua, por pessoas em situação de sem-abrigo, pobreza, exclusão social e de risco. "A revista, como instrumento de inclusão social, vai servir as necessidades monetárias de cada vendedor, de acordo com o objetivo de venda traçado". Cada vendedor está autorizado a vender um determinado número de revistas, de acordo com as suas necessidades e num máximo até 300. Estas vendas podem servir de complemento a um Rendimento Social de Inserção (RSI) que já recebam ou como principal e única fonte de rendimento. O preço de capa são 2 euros e 70% da receita das vendas reverte para os vendedores. Além dos utentes diretos da CAIS, a revista é também distribuída por instituições de cariz social em todo o país que selecionam, entre os seus utentes, os vendedores CAIS. 

O programa Capacitar Hoje (CAHO) de inserção profissional procura desenvolver áreas comerciais através da criação de serviços capazes de integrar pessoas em situação de grande fragilidade económica, motivadas para o trabalho. Atualmente, a CAIS disponibiliza o serviço de Lavagem Manual e Limpeza de Automóveis a Seco, com ou sem aspiração, o serviço de Engraxadores, em Lisboa, e um serviço de criação de produtos (brindes/ ofertas) com recurso à reciclagem, no Porto. Estão previstos para breve o serviço de Engomadoria e Tratamento de Roupa e o Serviço de Manutenção dos Espaços Verdes. São projetos que assentam na utilidade dos serviços prestados e que preveem a sua autossustentabilidade. Por cada serviço, o utente receberá até 60% do valor.

"Fazemos um diagnóstico com a pessoa, averiguamos as suas necessidades e as suas capacidades e preparamo-las para um circuito de formação onde vão aprender o saber ser, saber estar e saber fazer, tudo num âmbito profissional", revela a coordenadora-geral. Os utentes são depois integrados nestes "pequenos negócios que a CAIS está a criar e depois espera-se que consigam encontrar um contrato de trabalho noutra empresa, do mesmo ramo, num ramo diferente ou através da criação do seu próprio negócio", acrescenta.

Vítor Lima frequentou o curso de Engraxadores pelo CAHO, a par da formação em matemática e inglês, e agora espera por uma oportunidade. "Faço o que posso para me sentir vivo. As pessoas aqui têm apostado muito em mim e isso tem-me sensibilizado e dá-me confiança. Eu gostava de fazer qualquer coisa que me tornasse independente financeiramente. É o meu sonho", confessa.

Apesar da periodicidade anual, o AventurArte e o Futebol de Rua são também projetos de inclusão. O AventurArte junta utentes, técnicos e voluntários, do centro e de instituições convidadas, para um dia diferente. "Fazemos um peddy paper cultural em Lisboa e Porto e depois uma festa com entrega de prémios. É uma iniciativa muito intensa pois esbatem-se barreiras e diferenças entre os participantes", realça Sara Pinto. O Futebol de Rua é um projeto de desporto inclusivo que, através do futebol, procura mediatizar as questões sociais e gerar imagens positivas de grupos habitualmente estigmatizados.

O ClubeCAIS tem como objetivo "influenciar e educar os alunos para que estes se tornem cidadãos mais solidários, mais inclusivos, mais atentos e mais abertos à diferença. Tratamos as questões do género, da pobreza e apresentamos a nossa ação nas escolas", elucida Sara Pinto.

Mudar políticas e promover a reflexão e o debate sobre pobreza e exclusão social

O eixo da intervenção aborda a promoção da reflexão e debate das questões que se ligam aos fenómenos da pobreza e exclusão, em Portugal e no mundo, junto da opinião pública, seja com os media, os decisores ou influenciadores políticos ou sociedade civil. Aqui surgem os projetos que dão visibilidade a estas questões como a edição da Revista CAIS, o Prémio de Fotografia, o Pão de Todos para Todos, Congressos e Publicações e Discussões Públicas.

A Revista CAIS está na génese da associação. Em 1990, face ao aumento do número de pessoas em situação de sem-abrigo em Portugal, e tendo como base a experiência e os resultados obtidos no apoio à população sem-abrigo através da venda da revista de rua inglesa, The Big Issue, um grupo de pessoas interessadas e lideradas por Rui Marques acreditou que a adoção desta estratégia, em Portugal, poderia contribuir para a recuperação da autonomia e independência de pessoas sem teto.

Assim, a 20 de maio de 1994, nasce a associação CAIS (Circulo de Apoio à integração dos Sem-abrigo), com Rui Marques, Francisca Assis, Jorge Vicente, Diogo Vasconcelos, João Van Zeller, e Henrique Pinto como sócios fundadores e Maria de Jesus Barroso, como Presidente Honorária da Associação. O primeiro projeto foi a criação de uma revista com o nome da associação, que fosse vendida, na rua, por pessoas em situação de sem-abrigo, pobreza, exclusão social e de risco.

Com o aumento das preocupações sociais e da necessidade de intervir, a CAIS profissionalizou-se e o que apenas era a Revista CAIS, é hoje uma associação que atua em dois eixos distintos: a intervenção e a inclusão.

Atualmente, a edição mensal da revista conta com um editor interno e com a colaboração de  voluntários. Sara Pinto destaca a parceria com a LUSA, que garante o acesso a um banco de imagens, e a contribuição do projeto Repórteres de

Rua, um workhop no âmbito do qual os utentes elaboram uma página com artigos e imagens.

O Prémio de Fotografia tem como principais objetivos a dinamização do meio fotográfico e a valorização da fotografia enquanto expressão artística. "A fotografia, para nós, é representativa da nossa atividade e da estética com que nós fazemos tudo aqui na CAIS", diz a coordenadora-geral. Aberto a todos os cidadãos residentes em Portugal, profissionais, estudantes e amadores, esta iniciativa culmina com uma exposição fotográfica das obras finalistas e, em simultâneo, com o lançamento da edição especial da Revista CAIS, também dedicada ao tema.

Anualmente, em época natalícia, a CAIS promove a iniciativa Pão de Todos para Todos. De acordo com Sara Pinto, é montada uma tenda que serve de padaria numa praça pública de Lisboa para produzir pão durante uma semana e distribui-lo gratuitamente a todos os que lá passem. É um evento onde se celebra o pão e os seus valores intrínsecos, como a gratuidade, partilha, fraternidade e união. Destaque para o papel dos mais de 300 voluntários que participam nesta iniciativa e que querem voltar a participar, ano após ano.

Os Congressos CAIS realizam-se anualmente desde 2002. "É um congresso longo, mas é algo propositado, para que se consigam aprofundar os temas que são colocados à consideração e que se traduzem sempre numa publicação", elucida Sara Pinto. São eventos que têm permitido reunir diversas organizações e profissionais do setor social, políticos e estudiosos, em reflexões que visam colocar as questões sociais na ordem do dia.

A CAIS procura ainda participar e promover várias iniciativas de discussão pública ao longo do ano, como é o caso das ações desenvolvidas no passado dia 17 de outubro, Dia Mundial para a Erradicação da Pobreza. Nesta altura foi também lançado o hino de esperança. "Grãos de uma Romã", uma canção para estimular os portugueses a vencer a crise e erradicar a pobreza. Ouça aqui.

O Protocolo Abrigo

Óscar Vieira realça o trabalho desenvolvido pela CAIS

Como Instituição Particular de Solidariedade Social, sem fins lucrativos, a atividade da CAIS e o alcance dos seus objetivos, passa pela criação de sinergias com as mais variadas instituições públicas ou privadas. O Protocolo Abrigo, cuja primeira edição foi assinada em 2002, surge neste âmbito e junta diversas empresas em torno de um único objetivo: apoiar a CAIS na concretização dos seus objetivos, através da disponibilização de bens e serviços das suas áreas de negócio.

A Fundação PT, inicialmente através da PT Comunicações, "foi a primeira entidade a querer associar-se e a imaginar connosco este protocolo. Temos uma relação com a Fundação baseada na proximidade e no carinho com que nos ajudaram a ir de empresa em empresa a angariar mais parcerias", assegura Sara Pinto.

Óscar Vieira, administrador-delegado da Fundação PT, realça o trabalho desenvolvido pela CAIS, uma associação que "tem dado provas de conseguir trabalhar num meio que não é fácil". Destaca ainda a capacidade da CAIS em "colocar na ordem do dia temas relacionados com a pobreza e com a exclusão social, potenciando o trabalho em rede e consolidando parcerias. Na associação valorizam os beneficiários, fazem-nos acreditar que podem ter dignidade própria. Isso é muito importante", considera.

Assinatura após assinatura, hoje, o Protocolo Abrigo junta 25 empresas, entre as quais a Fundação PT, em torno de uma só causa – a solidariedade social. Óscar Vieira esclarece que o apoio da Fundação é "regular e continuado. Nós apoiamos fundamentalmente na componente de custos, para que eles consigam fazer face aos encargos com as comunicações. Já fazemos isso há uns anos e temos regularmente renovado o protocolo", como aconteceu em março de 2011.

Além deste apoio, a Fundação PT "autoriza a venda da revista CAIS, com presença do vendedor em locais PT, colabora na realização de congressos, apela a novos mecenas para se juntarem à CAIS através do Protocolo Abrigo e, através do projeto Mão-na-Mão a associação beneficia, periodicamente, da força voluntária, como aconteceu com a pitura e renovação das instalações do Centro CAIS de Lisboa", hoje divididas por áreas de atividade: CAIS Palavras (formação linguística); CAIS Movimentos (atividade física, exercícios); CAIS Digital (informática) e CAIS Cores (trabalhos manuais).

Uma intervenção que se faz com apoios

Enquanto voluntária, Carolina desenvolve ações ligadas à promoção da cidadania

Para o desenvolvimento da atividade da CAIS, Sara Pinto destaca a importância dos apoios monetários (Mecenas/ Patrocínios a projetos anuais; Protocolo Abrigo; Projetos e candidaturas premiadas; Residual quota de sócios e venda da Revista), mas também os apoios com serviços e bens. É aqui que entram os voluntários, uns com uma ação anual e permanente, outros com ações esporádicas.
"Esta instituição vive muito de ajudas. Qualquer pessoa ou entidade pode ajudar, seja financeiramente ou como voluntários. Há muitas coisas que podem fazer nos centros CAIS", assegura o utente Vítor Lima.

Sara Pinto deixa o apelo: "se for numa perspetiva pontual, inscrevam-se e serão contactados aquando da realização das iniciativas anuais. Se for na perspetiva de uma presença mais prolongada, onde nós temos mais necessidade, inscrevam-se e serão certamente contactados". Os interessados podem-se inscrever no site da associação ou através dos anúncios que a CAIS tem na Bolsa do Voluntariado, uma bolsa que agrega as necessidades das instituições com as respostas das empresas ou dos voluntários individuais.

Carolina, voluntária no Centro CAIS de Lisboa, destaca a agradável surpresa que foi contactar com a CAIS e os seus utentes, "desde a forma como fui recebida até à lógica de trabalho que desenvolvem, diferente das que conheci até aqui". Sendo socióloga, Carolina interessa-se por trabalhar as questões da cidadania e, na CAIS, teve abertura para fazer atividades com os utentes, para dialogar e para realizar oficinas de cidadania.

(23/ 01/ 2012)

Facebook Twitter Google+